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quinta-feira, 29 de setembro de 2022

Pensamento avulso LXXII

O jornalista Fábio Sormani está experimentando o padrão jornalístico da grande imprensa. A mim pouco importa se ele fez ou não o que falaram. A questão é que na ânsia pela polêmica, ainda mais se envolver uma pauta progressista, a verdade é o que menos importa. Se fazem isso com um colega de profissão sacrificando-o no paredão do cancelamento, imagine o que não fariam com um anônimo, como de fato já o fazem. O novo "normal" do padrão jornalístico já jogou na fogueira a presunção de inocência e vão jogar fora também as pessoas, hoje metaforicamente, amanhã literalmente, sob o aplauso furioso das turbas, algo nada original na história. PS: aos que têm dificuldades com compreensão de texto: não, não estou criticando o jornalismo em si mesmo, mas o que fazem dele uma arma para seus ganhos politiqueiros e demagógicos.

domingo, 14 de agosto de 2022

Reflexões após um quase cancelamento

Escapei por pouco de um cancelamento ou quase isso, afinal esse tipo de “modernice” dá margem a inúmeras interpretações. E por falar em interpretação foi justamente a sua falta ou seu mau uso, o que nos fim das contas dá no mesmo, que me colocou em situação desconfortável. Como a situação foi resolvida e não veio a público não irei entrar em detalhes, mas somente a mencionarei em termos mais genéricos.


Já escrevi sobre esse assunto antes (aqui), mas não havia chegado tão perto de eu mesmo ter me tornado uma vítima. Confesso que a princípio fiquei indignado, mas reportei tudo a quem de direito demonstrando a licitude de minha postura. Decorrido um tempo após o caso, volto a ele com maior compreensão e menos afetado emocionalmente, tendo já dissipado a raiva transformando-a em tristeza. Mas, como homem racional que sou vou além do sentimento para buscar a compreensão. Nesse sentido, vislumbro duas chaves de leitura que considero profundamente conectadas.


A primeira me veio após uma conversa das boas que tive com um confrade professor que expos em poucas palavras o que eu já intuía: “as pessoas não se preocupam com a verdade”. De fato o que impera em casos assim, que se multiplicam é a preocupação com uma narrativa, com um discurso e não com o verdadeiro e consequentemente com o bem. E isso pode ser visto não apenas em relação ao fenômeno contemporâneo do cancelamento, mas também em outras situação onde, por exemplo, para resguardar as “boas” aparências, ao mesmo tempo em que se espalham os cancelamentos também aumentam as denúncias de fake News, em grande parte elas mesmas mais mentirosas do que as “notícias” que acusam. Importa antes o impacto causado que sua veracidade, resume-se qualquer tipo de acontecimento ao marketing que se lhe associa.

Em meio ao caos midiático advindo dessa guerra de narrativas sobra pouco espaço para a verdade tão mencionada, mas pouco presente, principalmente quando suas consequências são inconvenientes. Esse desapego ao verdadeiro, que anula uma vocação propriamente humana, associada ao verniz que a menção da palavra “verdade” dá ao erro, abre ou melhor escancara as portas da segunda chave de leitura que antecipei acima. Para isso, recorro a São Thomas Morus que ao repercutir a recepção ao texto da, “Utopia”, afirmava ser responsável pelo que escrevera e não pelo (má) interpretação que haviam feito de sua obra.

Há nesse “espírito de cancelamento” uma má vontade em relação a se compreender o que não se concorda, como se entendimento e concordância fossem sinônimos, prevalecendo um juízo preconcebido de tudo com o que se depara sem se dar ao trabalho de ao menos ler ou saber minimamente o que se recrimina. E nisso, a geração atual do cancelamento supera o que Morus critica, pois ao menos sua obra fora lida.

O quase cancelamento me acendeu as luzes de alerta para isso e me fez correlacionar esse fenômeno com uma prática muito endossada pelo jargão: “precisamos formar cidadãos críticos”. Nesse sentido, prévia à ânsia do julgamento encontra-se a ânsia de criticar não importa o que e nem como, muito menos se há o entendimento suficiente para se fazer a crítica. Somamos então um incapacidade interpretativa ao poder infinito da crítica irresponsável e infundada e está armada a “casinha” do cancelamento.



terça-feira, 26 de julho de 2022

Pensamento avulso LXXI

Não será no terreno da economia que serão travadas as batalhas dos nossos tempos. Algumas trincheiras podem ser armadas no campo cultural, mas também aí não se travarão as batalhas decisivas. O embate derradeiro ocorrerá no território espiritual.

sexta-feira, 15 de julho de 2022

Pensamento avulso LXX

Pode-se enxergar o "identitarismo" e suas ramificações como o movimento Woke como a dissolução de uma civilização baseada em princípios universais. No entanto, tais movimentos vão muito além disso, pois dissolvem a própria sanidade humana de quem realmente leva a sério essa tribalização da sociabilidade humana.

Explico-me! Não se trata de um retorno ao antigo tribalismo, mas da redução do ser humano a grupo cada vez mais restritos que se impõem como os depositários da verdadeira opressão histórica. Como "A Revolução" justifica moralmente que tais grupos utilizem dos meios disponíveis para superar tal opressão não é surpresa que a irracionalidade floresça em meio a tais movimentos. 

Cumpre-se assim o curso dialético, hegeliano diga-se de passagem, que acomoda a tensão entre o racional e o irracional, entre o adequado e o inadequado, um verdadeiro "morde e assopra" histórico que ficou bem claro desde a Revolução Francesa. Nesse sentido, wokeísmo e afins não são contraditórios ou mesmo contrários ao valores revolucionários supostamente universalistas, mas são a complementação dialética, a síntese de um processo ininterrupto de mudanças que começa com a revolução moderna.

Então, não se trata de um novo alvorecer cinzento ou brilhante, mas de um ocaso, onde o irracionalismo do tribalismo contemporâneo é o estágio quase definitivo do modernismo racionalista.     

sábado, 9 de julho de 2022

Pensamento avulso LXIX

Segue a segunda lição que podemos retirar da teologia de Bulltmann:

2) O afastamento do Magistério e da Tradição impossibilita, sim impossibilita a compreensão das Sagradas escrituras. Como dissemos anteriormente sobrou a Bultmann uma erudição vazia de sabedoria. Sua teologia muito apegada ao cientificismo da virada dos séculos XIX-XX teve de se apegar numa hermenêutica que tomasse todos os testemunhos dos escritores sagrados como símbolos, como figuras de linguagem. Tudo isso para a mensagem evangélica "cair" bem, em tese para uma sociedade em que os mitos não repercutiam, quando na verdade, numa linguagem bem clara e popular, o que se pretendia era tornar o Evangelho palatável a intelectuais pedantes e amantes de abstrações como bem explicou Chesterton ao dizer que estes deixavam de ser homens quando se esforçavam para se tornarem humanistas.

No fim das contas faltou em seu caminho um S. Filipe como ocorrera ao eunuco da rainha Candace, alguém que lhe explicasse as Escrituras para além das letras que o sufocavam.  

quinta-feira, 19 de maio de 2022

Pensamento avulso LXVIII

A teologia de Rudolf K. Bultmann que fez a cabeça de muitos no século XX e continua fazendo suas "vítimas" nos traz duas lições. Segue abaixo a primeira delas:

1) Erudição e sabedoria podem ser inversamente proporcionais, ou seja, há como ser sábio sem erudito, bem como pode-se ser erudito sem ser sábio. Os poucos que conseguem alcançar ambos elevam consigo a muitos aliviando-os parcialmente do peso da ignorância que acompanha a maldade.

segunda-feira, 11 de abril de 2022

Memórias da Semana Santa

Ao ser perguntado se me lembrava das músicas cantadas na Via Sacra respondi o seguinte:

Toda vez que inicio o "a morrer crucificado..." me sucedem memórias, afetos e sentimentos que estimulam a vontade de rezar e meditar sobre as dores de Nosso Senhor no calvário. Lembro da minha mãe, dos meus tios e tias avós, das senhoras mais velhas, pejorativamente chamadas de antigas, das ruas de Pedro Leopoldo onde a procissão quilométrica entoava cantos piedosos. Lembro da esquife de Nosso Senhor com o cheiro agradável de ervas aromáticas, como o manjericão. Lembro da belíssima imagem de Nossa Senhora das Dores e da procissão do encontro onde ainda pequeno não dimensionava a dor de ver um filho sofrer e ainda hoje nem sequer arranho nesse ponto, pois Nossa Senhora via ali ensanguentado Seu Filho, mas também o Seu Senhor. Quanto sofrimento não carregou aquele coração puro!

Lembro do silêncio e das velas, e da minha mãe a se negar a nos comprar pipocas na encenação da paixão. Aquele não era momento para comer pipocas dizia ela, aquele não era um espetáculo qualquer e o nosso pequeno sacrifício em seus dizeres não era nada comparado ao sacrífico da cruz.

Eu vivi os últimos suspiros, já vacilantes, de um tempo onde a semana santa ainda não tinha virado um feriado prolongado e onde ainda se viam os homens abaixarem seus chapéus ao verem o cortejo. Até os prostíbulos abaixavam as portas e algumas mulheres saíam  de lá com um olhar lacrimoso rumo ao esquife que era levado com profundo respeito por homens "antigos", já calejados.

Por último me lembro das matracas...

Que som incômodo e monótono, o som de um mundo deicida, um som áspero, mas que no fundo anunciava um novo tempo onde uma nova canção de alegria entoaria.

Sim, eu me lembro...