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sábado, 17 de outubro de 2026

Pensamento avulso CLIX

O intelectual moderno é um médico pelas metades. Costuma ser um bom especialista em diagnósticos e péssimo ao oferecer o tratamento. Para salvar um membro mata o paciente todo, vide os materialistas que para "salvarem" os fenômenos imanentes destroem por completos os transcendentes. 

terça-feira, 16 de setembro de 2025

Pensamento avulso CXL

Ideias como a de violência simbólica de Bourdieu e a de microfísica do poder de Foucault enformaram a mentalidade e os discursos dos formadores de opinião se estendendo às pessoas comuns. Nesse sentido, não há como combater certas práticas contemporâneas, bem como suas ideologias sem que se exponha e combata essas noções de fundo que por sua vez se baseiam em má filosofia, para dizer o mínimo.

PS: em momento oportuno desenvolverei mais esse pensamento avulso.

quarta-feira, 16 de julho de 2025

Pensamento avulso CXXXI

O problema do mundo moderno e de seus congêneres (pós-modernismo, hipermodernismo, etc.)  é que eles ignoram solenemente a condição humana após a Queda, procurando, em vão, um homem que já não existe mais.

domingo, 1 de junho de 2025

Pensamento avulso CXXVI

A agitação política é um reflexo mais amplo da agitação interior. A modernidade vem exaltando há séculos o homem prático e a ação. Com isso, até mesmo na religião a contemplação foi anulada. Hoje colhemos os frutos desse processo.

sábado, 6 de abril de 2024

Política: do bem comum ao jogo de poder

 

O conceito de política é um conceito que, tomando de empréstimo a lógica aristotélica, chamaríamos de equívoco em nosso contexto, ou seja, um conceito em que para um único nome ou termo há diferentes conceitos mentais associados. Isso significa que apesar do nome “política” ser único, há diversidade de significados que variam ao longo da história.

A fins didáticos iremos distinguir neste texto duas grandes matrizes de definição do que é política, buscando transformar esse conceito num conceito análogo, onde tomando de empréstimo os dizeres do filósofo brasileiro Mário Ferreira dos Santos, obtenhamos uma “síntese da semelhança e da diferença” entre as duas visões de política.

Podemos dizer, em linhas gerais, que em qualquer cenário a política diz respeito à sociabilidade humana e às relações de poder. No entanto, o entendimento acerca desses fundamentos da política não implica numa mesma definição desta. Como já dissemos, há duas linhas que iremos investigar.

A primeira advém da compreensão clássica que permeou a filosofia política desde a Antiguidade ao Medievo. Essa compreensão é definida por alguns estudiosos das ciências sociais, como idealismo político. Certamente esse é um termo controverso, mas que resumidamente indica que a visão clássica colocaria a teoria sobre o que deveria ser a política à frente da política concreta, como se o que deve ser estivesse acima daquilo que é. Se observarmos mais atentamente as obras de política de um Aristóteles ou de um Raimundo Lúlio, por exemplo, vemos que não há uma sobreposição da teoria sobre a prática, do vir a ser sobre o que é, mas a busca pela universalidade própria da Filosofia ou do entendimento da realidade concreta por meio de valores e princípio universalizáveis.

Em meio à essa definição clássica podemos considerar que a política deve ser vista como a busca pelo bem comum. Política e ética, nesse contexto, são complementares, devendo a política refletir o bem próprio do horizonte moral:


O governo que serve ao interesse dos governantes é tirânico. Só o governo que promove a vida boa dos governados é bom.

[...] Para ser bom, o governo tem de ter uma autoridade reconhecida e aceita pelos governados, não o mero poder ou força ao qual eles se submetem por medo. (ADLER, 2010, p. 127)   

 

Apesar das divergências acerca da política ao longo dos séculos, o núcleo conceitual comum permaneceu inalterado, entretanto as circunstâncias históricas, bem como sua análise conceitual, alterou-se e na virada que erigiu a Modernidade uma nova forma de enxergar a política surgiu. Para contextualizar e nos situarmos historicamente cabe mencionar alguns eventos do período como a queda do império romano no Oriente em Constantinopla (1453), as Grandes navegações (séc. XIV-XV) e as Guerras Italianas entre 1494 e 1559.

É nesse contexto que Nicolau Maquiavel (1469-1527) tem uma percepção sobre a política que promove uma reviravolta na história das ideias, inaugurando o que muitos teóricos convencionaram chamar de realismo político, bem como a ciência política. Em oposição aos “idealistas políticos”, a proposta era partir da realidade “nua e crua” daquilo que passou a ser o núcleo da noção de política, a saber, o conceito de poder.

Em sua obra prima, “O Príncipe”, Maquiavel lança mão de seus principais conceitos que exploraremos a seguir. Essa obra que a princípio serviria de manual ao príncipe, no caso Lourenço de Médici (1492-1519) a quem dedicou o livro, tornou-se base de entendimento para a nova visão de política que até hoje é fundamental para compreendermos a política não apenas na dimensão da ciência política, mas principalmente na prática da política.

Para delimitarmos nossa exposição focaremos em dois pontos principais: a separação entre ética e política e a virtù (virtude) necessária ao exercício do poder pelo príncipe. Se o horizonte da política na Antiguidade era o bem comum, na Modernidade o núcleo da política torna-se a conquista e manutenção do poder. Nesse conceito se destaca a separação entre ética e política, afinal nesse processo de manutenção do poder, o príncipe estaria justificado a agir em desconformidade com os valores e princípios morais socialmente aceitos, como podemos observar no trecho abaixo:

 

Donde é necessário, a um príncipe que queira se manter, aprender a não ser bom e usar ou não da bondade, segundo a necessidade. (MAQUIAVEL, 1986, p. 90)

 

Podemos perceber com isso, que de um lado, a ética (moralidade) está inserida na esfera privada, enquanto a política está inserida na esfera pública. Fica a questão prática: como o príncipe deve agir politicamente? Frente ao cenário da distinção citada, primeiramente o político deve ser capaz de captar o amor e o temor dos seus súditos, mas na incapacidade de alcançar ambos, seria preferível alcançar o temor. Para gerir o horizonte do poder, o príncipe deveria ter em mente dois conceitos: o de virtù e fortuna. Este teria a ver com as situações que escapam do controle do governante, enquanto aquele teria a ver com a capacidade do príncipe em lidar com tais situações.

Poderíamos exemplificar essa relação com uma situação prática em que haja uma situação de seca em que os grãos estão sendo produzidos em baixa quantidade. O príncipe não teria responsabilidade com a seca diretamente, mas deve ser capaz tanto de se precaver quanto de agir de tal modo que os grãos produzidos, ainda que em menor quantidade possam atender os súditos.

 

Referência bibliográfica:

ADLER, Mortimer J. Aristóteles para Todos. tradução. Pedro Sette-Câmara. São Paulo: É Realizações, 2010.

MAQUIAVEL, Nicolau. O Príncipe.11 ed. tradução. Roberto Grassi. São Paulo: Bertrand Brasil, 1986.

segunda-feira, 25 de março de 2024

O que é Filosofia?

 

A pergunta que intitula nosso texto é das mais comuns quando alguém, principalmente estudante, depara-se pela primeira vez com a matéria. Diferentemente das demais disciplinas escolares em que o objeto de estudo é bem determinado e específico, a Filosofia tem uma amplitude investigativa mais extensa. Isso significa que a Filosofia é uma disciplina que tem aspiração à universalidade, enquanto as outras disciplinas são particulares, ou seja, a Filosofia tenta enxergar o todo dando-lhe uma unidade cognoscível[1], enquanto as ciências buscam analisar ou compreender objetos específicos.

Para compreender essa relação podemos fazer uma analogia com o jogo de xadrez. Enquanto as ciências como a Física e a História, por exemplo, focariam em peças específicas como um peão ou uma torre, a Filosofia veria o tabuleiro como um todo relacionando as peças entre si.

Com as considerações acima temos um esboço da resposta ao que é Filosofia, a saber, um conhecimento sobre a totalidade ou conjunto dos próprios conhecimentos adquiridos. Ao longo de sua história, a Filosofia teve alterações em sua abordagem, mas essa busca parece ser sua sina. Além dessa busca a definição clássica, ou seja, desenvolvida entre os filósofos gregos Antigos como Platão e Aristóteles, passando pelos pré-socráticos e helenistas, tinha por base o uso da razão natural como instrumento de entendimento da realidade em sua totalidade. Eis então o substrato ou essência da filosofia clássica que se manteve durante séculos como paradigma da filosofia como podemos observar no trecho abaixo:

 

“A filosofia é um conjunto de conhecimentos naturais metodicamente adquiridos e ordenados, que tende a fornecer a explicação fundamental de todas as coisas.” (RAEYMAEKER, 1969, p. 36)   

 

Podemos verificar que Raeymaeker destaca, como dissemos acima, os termos “conhecimentos” e “todas as coisas” que representam a racionalidade e universalidade próprias do saber filosófico. Entretanto, podemos perceber outras duas dimensões fundamentais da filosofia clássica que ainda hoje serve de bússola aos filósofos contemporâneos, a saber, a ordem e o caráter natural do empreendimento filosófico. O primeiro indica que há uma organização e métodos no “trabalho” do filósofo que procede ordenadamente, supondo também uma ordem na realidade. Já o segundo ponto indica que a filosofia se limita ao conhecimento natural não recorrendo a elementos sobrenaturais em suas investigações, ainda que muitos filósofos reconheçam e pressupunham uma realidade sobrenatural.

PS: esse texto foi escrito com o intuito de esclarecer aos alunos do Ensino Médio o significado resumido da disciplina Filosofia.

Referência bibliográfica:

RAEYMAEKER, Luís de. Introdução à Filosofia. 2. ed. tradução. Alexandre Correia. São Paulo: Herder, 1969.


[1] Que pode ser conhecida.

sexta-feira, 5 de janeiro de 2024

Pensamento avulso XCIII

Um dos maiores erros da filosofia moderna é sobrepor a lei positiva à lei natural. Daí à negação pós-moderna desta lei foi um pulo.

sexta-feira, 1 de dezembro de 2023

Pensamento avulso XCI

A memória é o fio de unidade do nosso ser, unindo o que já foi ao que é.

sábado, 9 de julho de 2022

Pensamento avulso LXIX

Segue a segunda lição que podemos retirar da teologia de Bulltmann:

2) O afastamento do Magistério e da Tradição impossibilita, sim impossibilita a compreensão das Sagradas escrituras. Como dissemos anteriormente sobrou a Bultmann uma erudição vazia de sabedoria. Sua teologia muito apegada ao cientificismo da virada dos séculos XIX-XX teve de se apegar numa hermenêutica que tomasse todos os testemunhos dos escritores sagrados como símbolos, como figuras de linguagem. Tudo isso para a mensagem evangélica "cair" bem, em tese para uma sociedade em que os mitos não repercutiam, quando na verdade, numa linguagem bem clara e popular, o que se pretendia era tornar o Evangelho palatável a intelectuais pedantes e amantes de abstrações como bem explicou Chesterton ao dizer que estes deixavam de ser homens quando se esforçavam para se tornarem humanistas.

No fim das contas faltou em seu caminho um S. Filipe como ocorrera ao eunuco da rainha Candace, alguém que lhe explicasse as Escrituras para além das letras que o sufocavam.  

quinta-feira, 19 de maio de 2022

Pensamento avulso LXVIII

A teologia de Rudolf K. Bultmann que fez a cabeça de muitos no século XX e continua fazendo suas "vítimas" nos traz duas lições. Segue abaixo a primeira delas:

1) Erudição e sabedoria podem ser inversamente proporcionais, ou seja, há como ser sábio sem erudito, bem como pode-se ser erudito sem ser sábio. Os poucos que conseguem alcançar ambos elevam consigo a muitos aliviando-os parcialmente do peso da ignorância que acompanha a maldade.

segunda-feira, 27 de dezembro de 2021

Pensamento avulso LXVII

A moralidade tem um princípio externo que é o próprio Deus e outro princípio interno que em última instância também se direciona a Deus, já que temos a marca de Deus em nosso íntimo, afinal fomos criados à Sua imagem e semelhança.

sábado, 4 de dezembro de 2021

Sobre a relação entre Filosofia e Teologia

(Vídeo aqui)

 Analisemos a seguinte questão: Por que é necessário estudar filosofia para entender teologia?

Antes de respondê-la é necessário fazer algumas considerações importantes. Primeiramente é preciso deixar claro que os conhecimentos de filosofia e teologia não são necessários à salvação. A doutrina de Cristo abarca sábios e ignorantes, sendo a salvação dada pela graça divina diferentemente das doutrinas gnósticas em que conhecimentos iniciáticos esotéricos, ou seja, conhecimentos fechados num grupo de iluminados são exigidos para se elevar espiritualmente e se salvar.

O segundo ponto é que nem toda filosofia é compatível com a teologia cristã, pois que muitas filosofias negam a dimensão sobrenatural ou mesmo a legitimidade da fé. Além disso, há que se atentar para a superioridade da teologia sobre a filosofia, tanto pelo seu objeto, no caso o próprio Deus, quanto por sua abrangência já que a filosofia está restrita aos limites da razão natural, enquanto a teologia pressupõe a fé sobrenatural, uma virtude teologal.

Feitas tais considerações podemos lidar diretamente com a pergunta recorrendo à afirmação de S. Tomás de Aquino de que a “graça pressupõe a natureza”[1]. Isso significa dizer que nós, diferentemente das criaturas angélicas, somos constituídos de um corpo material, logo não somos “puro espírito” recebendo, por exemplo, as graças sacramentais por meio de elementos naturais como no caso do batismo em que a matéria sacramental é a água. Desse modo, para compreendermos a ação de Deus na história que se dá por intermédio de sua Criação faz-se preciso o uso da razão natural que é capaz de apreender as causas, afinal como diria Aristóteles reafirmado por S. Tomás de Aquino: conhecer é conhecer as causas.

Se concordarmos com o princípio filosófico[2] de que falamos por palavras enquanto Deus nos fala pelas palavras e pelas coisas não é de pouco valor o conhecimento das coisas, proporcionado pela inteligência em que a razão se dirige ao seu objeto próprio. Assim, sendo a filosofia a máxima ciência no que tange ao uso da razão é, até mesmo por sua universalidade, fundamental na compreensão da natureza criada por Deus. Como a teologia, que é a Ciência da Graça não pode também como a própria graça prescindir do que é natural, é preciso que ela recorra à máxima ciência do natural para que os efeitos da própria graça se tornem para nós inteligíveis, ou seja, devidamente compreensíveis. A implicação disso é que a filosofia é necessária à teologia como a ciência que lhe concede o aparato conceitual para que nossa inteligência compreenda aquilo que lhe é possível no horizonte do mistério, ainda que saibamos que só a fé como nos diz o Tantum ergo no hino Pange lingua é capaz de completar as lacunas dos sentidos.

Para nossa resposta não ficar demasiada teórica podemos recorrer ao seguinte exemplo para deixá-la mais clarividente: diz a doutrina que com a elevação da hóstia e do cálice pelo sacerdote, juntamente à pronúncia das palavras do cânon, o pão e o vinho se convertem no corpo e sangue de Cristo. Obviamente essa é uma sentença que nos toca a fé, no entanto, temos diante de nós a matéria do pão e do vinho. Desse modo resta a questão: o que houve nesse momento tão sublime? Respondem os teólogos: houve a transubstanciação que consiste na mudança substancial do pão e do vinho sem a alteração de seus acidentes. Tal distinção explicada por S. Tomás de Aquino advém da metafísica, que é matéria filosófica, mais especificamente da metafísica aristotélica onde a substância é constituída pela essência e pelo acidente.

A essência seria o que o ser (ente) de fato é, aquilo que o define enquanto tal. Já os acidentes consistem em atributos que são, mas que poderiam ser de outra forma sem alterar sua essência. Como o que define o homem, em última instância, é sua alma racional, enquanto sua altura seja 1,7; 1,8 ou 1, 95m não o define essencialmente. Assim, pão e vinho substancial e essencialmente se tornam Cristo mesmo, mas mantêm seus atributos materiais acidentais. Podemos perceber com isso que a teologia usa conceitos filosóficos para explicar parcialmente fenômenos “teológicos”.

Espero com essas palavras ter dissipado a dúvida apresentada, bem como ter contribuído para um entendimento mais amplo acerca do papel da filosofia no estudo da teologia.

 

Que Maria Santíssima interceda a Deus por nós!

 

 

 

 



[1] “A fé pressupõe o conhecimento natural, como a graça pressupõe a natureza, e a perfeição o que é perfectível”. “Fides praesupponit cognitionem naturalem, sicut gratia naturam, et ut perfectio perfectibile” Fonte: TOMÁS DE AQUINO. Suma teológica. Ia, q. 2, a. 2., ad 1.

 

[2] Mais do que um princípio filosófico essa afirmação constitui uma sentença teológica como deixa evidente a afirmação de S. Boaventura: “Como, porém, Deus não fala só pelas palavras, mas também por fatos - pois que sua palavra é ação e sua ação é palavra -, e como todas as criaturas, como efeito de Deus, acenam para sua causa: por isso, ·o que foi divinamente legado na Escritura não

deve significar apenas palavras , mas também fatos.” (BOAVENTURA, São. Brevilóquio. BOAVENTURA, São. Obras escolhidas. Org. Luis Alberto De Boni; tradução Luis Alberto De Boni, Jerônimo Jerkovié e Frei Saturnino Schneider. Porto Alegre, Escola Superior de Teologia São Lourenço de Brindes, Liv. Sulina Ed.; Caxias do Sul, Editora da Universidade de Caxias do Sul, 1983.)


domingo, 24 de outubro de 2021

Santo Agostinho: um breve comentário

(Vídeo aqui)

A história da Igreja nos regala com um grande número de conversões grandiosas como a do escritor inglês G. K. Chesterton, para citar um nome relativamente próximo de nós historicamente. Tais conversões são preciosas em vários sentidos e nos mostram a efetivação da parábola do Bom Pastor. Quando se fala de grandes conversões um nome que vem à mente de muitas pessoas é o de Santo Agostinho de Hipona, conversão esta fruto das incansáveis orações de sua mãe S. Mônica.

Agostinho fora um jovem errante e sua conversão se deu aproximadamente aos 33 anos após grande inquietação que o levou do neoplatonismo ao maniqueísmo. Sua história de conversão é extremamente interessante, mas não será o objeto deste texto. Aos interessados aguardem novos textos e acompanhem o segundo módulo do curso de Introdução à Filosofia Cristã que será divulgado nos meios eletrônicos.

O objetivo aqui é compreender alguns elementos da filosofia e teologia do bispo de Hipona. Nesse intento iremos recorrer à pintura em óleo sobre tela do pintor Philippe de Champaigne, um dos mais talentosos artistas do século XVII que passou a se dedicar a obras sacras após a cura milagrosa de sua filha e que nos brindou com um belo retrato de S. Agostinho, apesar de suas inclinações ao jansenismo.



A ideia aqui é partindo da contemplação da obra oferecer uns poucos elementos interpretativos da filosofia cristã em geral e da agostiniana em particular. Primeiramente gostaria de destacar que a pretensão aqui é singela tanto no aspecto de análise estética, não sou crítico de arte, quanto no âmbito filosófico e teológico. Feitas essas exposições iniciais podemos começar nossas considerações.

O ser humano é dotado de sensibilidade, vontade e inteligência, voltadas respectivamente ao belo, ao Bem e à Verdade. Com a perda dos dons preternaturais, oriunda do pecado original, tal ordem foi desvirtuada e a sensibilidade se voltou ao feio, ao desproporcional, enquanto a vontade e a inteligência se voltaram ao mal e à mentira, respectivamente. Para que tal desordem se desfaça é preciso que o ser humano busque auxílio na graça divina. E ao busca-la ele perceberá que Deus habita a sua própria alma, chegando o santo a expressar: “Deus nos é mais íntimo, que o nosso próprio íntimo” (Confissões III, 6, 11; 53,10).



Observando a pintura de Philippe de Champaigne podemos analisar tal reordenamento da sensibilidade para a vontade e da vontade subordinada à inteligência da seguinte forma: A verdade representada pelo Sol (acima), em que podemos ver escrito em latim “veritas”, que é próprio Cristo, a luz do mundo, ilumina a “cabeça”, ou seja, a inteligência e abrasa o coração (abaixo) que representa a vontade que coberta pela chama ardente da Verdade leva o homem ao Bem, ao reto caminho. Dessa forma, por intermédio da graça divina o ser humano é capaz de encontrar-se a si próprio encontrando a Verdade mesma que habita a profundidade de seu íntimo. Cabe aqui mencionar também que a vontade é o terreno do livre-arbítrio que se estiver ordenado à Verdade possibilita ao homem ser livre, sendo por sua vez a liberdade vinculada ao Bem. Só se é verdadeiramente livre quando se conhece a Verdade e se orienta por ela e, em última instância, a Verdade é o próprio Cristo como também o é o Bem.



Outro ponto que gostaria de destacar na pintura é em relação ao que se encontra sob os pés do santo. Trata-se de livros do monge Pelágio e provavelmente de Juliano de Eclano, ambos adeptos da heresia pelagiana. Tal detalhe torna a pintura ainda mais instigante e recomendável, afinal não bastou ao santo encontrar a verdade, mas lhe coube combater o erro e a mentira, pois a luz da verdade é como a lâmpada mencionada por Nosso Senhor: ela deve ser posta à vista, bem como as trevas devem ser dissipadas.



Como foi dito no início, este texto têm poucas pretensões, pois nossa expectativa é desenvolver mais detalhadamente o assunto no curso de Introdução à Filosofia Cristã oferecido por mim junto à Associação Cultural São Filipe Néri. Informações sobre inscrições e mais informações serão divulgadas oportunamente.

Que Maria Santíssima interceda a Deus por nós!

sábado, 17 de julho de 2021

Pensamento avulso LXIV

Algumas leituras são libertadoras. Cito, por exemplo, o livro "Imposturas Intelectuais" de Alan Sokal e Jean Bricmont. Eu lia alguns textos de aclamados filósofos pós-modernos e pensava o seguinte: "eu sou muito burro, não estou entendendo nada". No entanto, esse livro me tirou um peso, pois ainda que haja muita coisa em que minha ignorância dá o ar de sua graça, não foi esse o caso. De fato, grande parte desses escritos são confusos e ilógicos neles mesmos, além de fazerem mau uso de analogias com as ciências naturais e a matemática. Ver esses textos expostos em suas incoerências e exageros hermenêuticos gera um efeito catártico numa inteligência contaminada por tais filosofias.

Pensamento avulso LXIII

A verdade lógica é subordinada à verdade ontológica. O desordenamento dessa relação é causa e também efeito das loucuras modernas.

domingo, 24 de maio de 2020

Pensamento avulso XLVII

A verdade é verdade não importa quem a diga. É a verdade que inspira a autoridade e não o contrário.

sábado, 11 de abril de 2020

Aprender a morrer é aprender a viver

Texto que considero propício ao duplo temo que vivemos: o Tríduo Pascal e o isolamento social devido ao coronavírus:


"Quer você concorde ou não com eles, a questão essencial permanece, e se torna mais atual no contexto da pandemia que estamos padecendo: como nos preparamos para a morte? Vivendo ou sobrevivendo?"
https://www.dvox.co/single-post/2020/04/07/Aprender-a-morrer-e-aprender-a-viver

sexta-feira, 3 de abril de 2020

Questões filosóficas em quarentena - parte 1 e 2

Vários problemas filosóficos vêm à tona em períodos como o que vivemos. Vou em algumas postagens elencar alguns desses problemas. A numeração é meramente didática e não indica uma ordem de prioridade entre eles.


1) A ciência por mais avançada formal e materialmente que seja mantém um grau de probabilidade e incerteza. Isso decorre de seu próprio método em que o recorte da realidade se faz necessário. Isso gerou tal especialização que não raramente os cientistas se tornam incapazes sequer de posicionar seu objeto de estudo num quadro mais amplo, onde seu objeto é apenas mais um numa gama de outros objetos e fatores que não poucas vezes afeta seu próprio objeto. Na prática o cientista perde a sensibilidade para estabelecer conexão entre fenômenos que escapam ao seu método e ao seu recorte. Isso quando não se torna ignorante ao que não seja "científico" de acordo com seus pressupostos.


2) Diz-se que Maquiavel inaugurou uma nova forma de ver e fazer política. Acredito que o mais correto seja dizer que ele percebeu um movimento que estava acontecendo e lhe deu um acabamento teórico. Desde então, infelizmente, duas coisas se tornaram moda: de um lado separar a dimensão ética da dimensão política e aí vem a questão: caso não exerça as virtudes cardeais em sua vida privada como pode o político levar o povo a pratica-las. Diria uns que isso não cabe à política, mas aqui me volto à Aristóteles e a ciência política como ciência arquitetônica do bem comum. De outro lado, a noção de que o temor supera o amor também prevaleceu, mas se a fórmula permanece, novas formas sofisticadas e atuais de medo superam as antigas, não mais prisões políticas, campos de concentração como os gulags. No lugar quem sabe um terror cibernético ou... bem no fim das contas algum poderoso pode voltar às formas antigas de terror.

domingo, 8 de novembro de 2015

Pensamento avulso XX

Direto ao assunto: socialismo e marxismo, principalmente de tendência marxista, são absolutamente incompatíveis com a doutrina e a pessoa de N. S. Jesus Cristo. Incompatibilidade lógica e ontológica de tal forma que se um lado da oposição estiver correto o outro estará necessariamente incorreto. De um lado está a afirmação de que a redenção se encontra na própria história (no mundo) de outro a afirmação de que o reino definitivo não está neste mundo. Só uma teologia decadente como a TdL (teologia da libertação) poderia ferir de forma tão absurda a fé e a razão ao tentar compatibilizar o incompatível

sábado, 14 de março de 2015

Conceitos Filosóficos e principais filósofos pré-socráticos

Conceitos Filosóficos e principais filósofos pré-socráticos

Tendo em vista auxiliar as pesquisas de meus alunos apresento a seguir a definição de alguns importantes conceitos filosóficos que permeiam as pesquisas dos filósofos desde o início da Filosofia. Em seguida apresento um quadro com alguns aforismos dos primeiros filósofos:

   Conceitos;

Ainda que possuíssem claras diferenças em relação às concepções relativas aos elementos primordiais ou mesmo à maneira como o universo se ordena, os pré-socráticos (fisiólogos) compartilhavam a adoção dos conceitos, citados abaixo, em suas investigações filosóficas. A busca pelo elemento primordial e pelo princípio ordenador da natureza, bem como a utilização da razão constituem esses conceitos comuns a eles.
a) Logos (fundamento): este termo designa a razão, mas num sentido mais amplo do que usamos hoje. Através da razão é possível se propor questões sobre o funcionamento do mundo sem recorrer necessariamente a histórias sobrenaturais. Utiliza-se um processo metódico e racional, ou seja, um pensamento ordenado para conhecer o mundo.
b) Arché: significa literalmente princípio. Os primeiros filósofos buscavam a arché, ou seja, a origem do que observamos na natureza, o seu elemento primordial;
c) Cosmos: termo que significa ordem. Para os gregos todo universo faz parte de uma estrutura ordenada. Os primeiros filósofos buscavam justamente compreender esta estrutura;
d) Physis: significa natureza, mas não do modo como entendemos atualmente. Está relacionada aos processos naturais como geração e corrupção dos corpos, ou seja, seus movimentos.

Filósofos pré-socráticos;

Filósofo
Elemento primordial/Princípio ordenador
Fragmentos
Tales de Mileto (625-558 a.C.)

Água
“... a água é o princípio de todas as coisas...”.
“... todas as coisas estão cheias de deuses...”.
Anaximandro de Mileto (610-546 a.C.)
Ápeiron
(O Ilimitado)
“... o ilimitado é eterno...”
“... o ilimitado é imortal e indissolúvel...”
Anaxímenes de Mileto (588-525 a.C.)
Ar
“... do ar dizia que nascem todas as coisas existentes, as que foram e as que serão, os deuses e as coisas divinas...”
Xenófanes de Cólofon (570-528 a.C.)
Terra
“... tudo sai da terra e tudo volta à terra...”
“... tudo o que nasce e cresce é terra e água..."
Heráclito de Éfeso (540-476 a.C.)

Fogo
“... tudo flui...”
“... Tudo se faz por contraste; da luta dos contrários nasce a mais bela harmonia...”
“... descemos e não descemos nos mesmos rios; somos e não somos...”
Pitágoras de Samos (571-496 a. C.)
Número
“... o princípio das matemáticas é o princípio de todas as coisas.."
Parmênides de Eléia (530-460 a.C.)


“... pois pensar e ser é o mesmo...”
“... o ser é, e o nada, ao contrário, nada é...”
“... resta-nos assim um único caminho: o ser é...”
Empédocles de Agrigento (490-435 a.C.)

Quatro elementos:
Terra, fogo, terra e ar.
“... duas coisas quero dizer; às vezes, do múltiplo cresce o uno para um único ser; outras, ao contrário, divide-se o uno na multiplicidade..”
Anaxágoras de Clazomena (500-428 a.C.)
Homeomerias (sementes invisíveis)
“ ... Todas as coisas estavam juntas, ilimitadas em número e pequenez, pois o pequeno era ilimitado...”
Demócrito de Abdera (460-370 a.C.)
Átomos (partículas indivisíveis)
“...os homens fizeram do acaso uma imagem
como pretexto para a sua própria imprudência...”