Dia desses em diversas redes sociais apareceram influenciadores com uma espécie de campanha questionando a presença de pessoas brancas em rodas de samba. Em formato de entrevistas tais influenciadores, entre os quais até deputados, perguntaram aos entrevistados, a maioria deles pardos, se deve ser permitida ou incentivada a presença de brancos no ambiente do samba.
Aproveitando a polêmica durante uma aula de antropologia acerca da tese de Gilberto Freyre e sua posição a respeito da miscigenação no Brasil, propus analisarmos essa tentativa de segregação com base em “raça” que tem sido espalhada e estimulada por certos intelectuais brasileiros, ironicamente com base em realidades alheias ao próprio Brasil.
Inicialmente apresentei o problema mostrando como muitos entrevistados, aparentemente imersos numa bolha, diga-se de passagem, corroboraram a ideia e sobretudo a prática de evitar completamente ou ao menos minimizar a participação de brancos em sambas.
A mim não surpreendeu o fato da maior parte dos alunos não concordarem com tal segregação, apesar de pisar em ovos para o dizer. Com base então na obra de Freyre destaquei que historicamente essa querela acerca de “brancos no samba” é um “não-problema”, uma tentativa racialista e segregacionista que não faz sentido algum para quem tem o mínimo conhecimento da história do Brasil e que tem pouquíssima que seja sensibilidade musical. Terminei por “aí” a introdução crítica ao tema não sem antes apresentar a posição daqueles que consideram que o samba deveria ser uma forma de resistência negra ao sempre opressor homem branco.
Antes porém de prosseguir com o que fiz em sala cabe aqui um acréscimo. Como parte considerável dos problemas ou melhor, “não-problemas” levantados por intelectuais pós-modernos, mistura-se entes de razão com entes de fato muitas vezes aplicando questões referentes a determinado contexto a outros contextos distintos, idealizando-os. É o que vemos nesse caso particular que opõem samba/negro de um lado e homem branco de outro como se o samba como gênero musical genuinamente brasileiro não contasse em sua estrutura rítmica com instrumentos originalmente portugueses, como o cavaquinho. É nesse sentido que falo da confusão, a meu ver proposital, entre ente de fato e de razão, afinal num procedimento abstrato equivocado tomam como existente na realidade, ou seja, factualmente um negro ideal desvinculado do processo histórico que formou um povo miscigenado no Brasil. Tomam uma abstração (ente de razão) como se existente fosse (ente de fato). No caso particular do samba, anulam nomes grandiosos na história desse gênero musical como Noel Rosa, Adoniran Barbosa, Benito Di Paula e Clara Nunes.
Partindo desse pano de fundo que expus brevemente, mostrei aos alunos três canções: um fado português, um chorinho e um samba que encontram-se referenciados ao fim do texto. Ao executar as canções pedi que eles observassem a semelhança melódica delas e questionando ao encerrar se “samba deveria ser proibido para brancos”. Convido também o meu leitor a acessar as músicas e tirar suas próprias conclusões.
Em minha visão somente a demonstração clarividente das nossas raízes culturais podem nos livrar das propostas segregacionistas do novo racismo, o racialismo, que busca substituir anacronicamente o racismo científico, que sob a capa elegante da sofisticação acadêmica quer novamente separar as pessoas com base na cor da pele. Somente o estudo criterioso da real história brasileira pode nos livrar desse divisionismo.
Canções:
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