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sábado, 18 de abril de 2026

Considerações ao católico que ensina e educa - parte II

    Terminamos¹ a primeira parte com a afirmação do Doutor Angélico segundo a qual possuímos inclinações naturais ao bem, às virtudes. No entanto, como também mencionamos o pecado original desorientou essa inclinação sucedendo em nós o que afirma o Apóstolo S. Paulo: “Porque eu não faço o bem que quero, mas faço o mal que não quero” (Rm. 7, 19). A verdadeira educação é necessária, pois para nos orientar ao bem por meio da prática constante e habitual da virtude, o que se dá na dimensão da vontade. Tal constatação é anterior à verdade revelada, como fica demonstrado pelo filósofo pagão Aristóteles que nos diz algo assim na sua obra, “Ética a Nicômaco”.
    Passamos então ao âmbito da inteligência que deve ser precedida pela análise da sensibilidade, pois como nos indica S. Tomás de Aquino o conhecimento se inicia pelo apuro dos sentidos. Com isso, a educação católica como nos ensina a Santa Igreja começa pela beleza e ordem na pintura, na música, vide o gregoriano, e na arquitetura. A abstração das ciências e da lógica, inclusive da linguagem precisa da concretude das coisas sensíveis retamente ordenadas. Um exemplo prático numa aula de matemática pode ser o estudo do eixo simétrico iniciado pela observação de uma borboleta.
    O professor antes de situar o desenho de uma borboleta num plano cartesiano poderia mostrar uma borboleta real e indicar que essa beleza é parte da criação divina relembrando a passagem do Gênesis onde o Senhor após criar o mundo viu que tudo era bom. A bondade se expressa na beleza da ordem e da proporção conforme o Criador. A educação católica passa necessariamente por esse reconhecimento de que todo conhecimento verdadeiro vem de Deus e nos leva de volta a Ele, afinal como diz a glosa de S. Ambrósio toda verdade provém do Espírito Santo. O que há de mais “seco” e árduo na ciência pode nos apontar, dar indícios do criador. Se o professor particularmente e o educador genericamente conseguirem inspirar seus alunos a essa constatação, grande parte do seu trabalho está feito.


  1. Essa segunda parte só foi em parte desenvolvida durante a palestra sendo complementada a posteriori. ^

terça-feira, 31 de março de 2026

O branco e o samba

 Dia desses em diversas redes sociais apareceram influenciadores com uma espécie de campanha questionando a presença de pessoas brancas em rodas de samba. Em formato de entrevistas tais influenciadores, entre os quais até deputados, perguntaram aos entrevistados, a maioria deles pardos, se deve ser permitida ou incentivada a presença de brancos no ambiente do samba.

Aproveitando a polêmica durante uma aula de antropologia acerca da tese de Gilberto Freyre e sua posição a respeito da miscigenação no Brasil, propus analisarmos essa tentativa de segregação com base em “raça” que tem sido espalhada e estimulada por certos intelectuais brasileiros, ironicamente com base em realidades alheias ao próprio Brasil. 

Inicialmente apresentei o problema mostrando como muitos entrevistados, aparentemente imersos numa bolha, diga-se de passagem, corroboraram a ideia e sobretudo a prática de evitar completamente ou ao menos minimizar a participação de brancos em sambas.

A mim não surpreendeu o fato da maior parte dos alunos não concordarem com tal segregação, apesar de pisar em ovos para o dizer. Com base então na obra de Freyre destaquei que historicamente essa querela acerca de “brancos no samba” é um “não-problema”, uma tentativa racialista e segregacionista que não faz sentido algum para quem tem o mínimo conhecimento da história do Brasil e que tem pouquíssima que seja sensibilidade musical. Terminei por “aí” a introdução crítica ao tema não sem antes apresentar a posição daqueles que consideram que o samba deveria ser uma forma de resistência negra ao sempre opressor homem branco.

Antes porém de prosseguir com o que fiz em sala cabe aqui um acréscimo. Como parte considerável dos problemas ou melhor, “não-problemas” levantados por intelectuais pós-modernos, mistura-se entes de razão com entes de fato muitas vezes aplicando questões referentes a determinado contexto a outros contextos distintos, idealizando-os. É o que vemos nesse caso particular que opõem samba/negro de um lado e homem branco de outro como se o samba como gênero musical genuinamente brasileiro não contasse em sua estrutura rítmica com instrumentos originalmente portugueses, como o cavaquinho. É nesse sentido que falo da confusão, a meu ver proposital, entre ente de fato e de razão, afinal num procedimento abstrato equivocado tomam como existente na realidade, ou seja, factualmente um negro ideal desvinculado do processo histórico que formou um povo miscigenado no Brasil. Tomam uma abstração (ente de razão) como se existente fosse (ente de fato). No caso particular do samba, anulam nomes grandiosos na história desse gênero musical como Noel Rosa, Adoniran Barbosa, Benito Di Paula e Clara Nunes.

Partindo desse pano de fundo que expus brevemente, mostrei aos alunos três canções: um fado português, um chorinho e um samba que encontram-se referenciados ao fim do texto. Ao executar as canções pedi que eles observassem a semelhança melódica delas e questionando ao encerrar se “samba deveria ser proibido para brancos”. Convido também o meu leitor a acessar as músicas e tirar suas próprias conclusões.

Em minha visão somente a demonstração clarividente das nossas raízes culturais podem nos livrar das propostas segregacionistas do novo racismo, o racialismo, que busca substituir anacronicamente o racismo científico, que sob a capa elegante da sofisticação acadêmica quer novamente separar as pessoas com base na cor da pele. Somente o estudo criterioso da real história brasileira pode nos livrar desse divisionismo.


Canções:

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segunda-feira, 23 de março de 2026

Pensamento avulso CXLVIII

Homens e mulheres intelectualmente limitados e moralmente depravados obtiveram sucesso desde a Modernidade até a contemporaneidade ao transformarem suas limitações e vícios em grandeza intelectual e normalidade moral. Dominando a técnica diabólica subverteram o bem em mal, o belo em feio e o falso em verdadeiro dando-lhes aparência de correção por meio de ardis propagandísticos.




quarta-feira, 4 de março de 2026

Pensamento avulso CXLVII

A democracia tem sua legitimidade no terreno político e não no âmbito ontológico ou até mesmo no Direito natural. As filosofias modernas deram respaldo à confusão que misturou essas esferas superestimando o escopo das decisões democráticas e estão, por isso, nas bases dialéticas, no sentido hegeliano, das reações pós-modernas em que há o predomínio de narrativas sobre a realidade. Se antes em nome da democracia poderia se recriar o real, hoje em nome de inúmeras outras loucuras tal procedimento é realizado.     

terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

Pensamento avulso CXLVI

Parte considerável do que a intelectualidade moderna e contemporânea  produz é uma forma de racionalização de seus vícios e perversões. Isso não se restringe ao escopo das ciências humanas, mas se espalha em meio às ciências naturais, sobretudo à biologia.

domingo, 1 de fevereiro de 2026

Pensamento avulso CXLV

A sanha de mudar o mundo é o motor do pecado desde a primeira revolta contra Deus. O melhor de sair da juventude é a diminuição desse ímpeto e a aceitação da realidade. O que há pra mudar é o que nos cabe: a própria índole e o abandono dos vícios, nossas relações e o que nos cerca.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

S. Francisco de Sales, padroeiro da imprensa

Agora à noite lendo o livro, "Na Luz Perpétua", do pe. João Batista Lehmann lembro-me que o santo do dia, S. Francisco de Sales é o padroeiro da imprensa e dos jornalistas. E nesse texto o padre nos diz que o "inimigo do homem" se apoderou desse invento. De fato, hoje nos deparamos na maior parte das vezes com uma imprensa deturpada que o pe. Lehmann chama de má imprensa em oposição a uma boa imprensa. Aquela inocula na alma o veneno da impiedade enquanto esta está a serviço da Verdade. Aquela manipula e asfixia, esta informa e amplia a visão.

Que S. Francisco de Sales ardente em sua missão de levar à verdade os seus adversários por meio de uma sã argumentação interceda por nós para que não sejamos ludibriados por aqueles que usam a palavra para levar ao erro.

S. Francisco de Sales, rogais por nós! 

Imagem: François de Sales en sa gloire, Anonyme, 1677.

Obs.: texto escrito em 2023