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sábado, 17 de outubro de 2026

Pensamento avulso CLIX

O intelectual moderno é um médico pelas metades. Costuma ser um bom especialista em diagnósticos e péssimo ao oferecer o tratamento. Para salvar um membro mata o paciente todo, vide os materialistas que para "salvarem" os fenômenos imanentes destroem por completos os transcendentes. 

Pensamento avulso CLVIII

Não se serve a dois senhores ao mesmo tempo. Ou se é uma escola católica ou se adota a Agenda 2030. Essa oposição não se dá entre termos contrários, mas contraditórios.

quarta-feira, 30 de setembro de 2026

Pensamento avulso CLVII

O brasileiro se politizou antes de se tornar culto. E como não há política sem uma cultura que a sustente o que temos no Brasil não é propriamente política, mas uma politicagem mal disfarçada. 

segunda-feira, 7 de setembro de 2026

O Brasil ante o sentido da vida

 “Condeno a aplicação, louvo a denominação. O mesmo direi de toda a recente terminologia científica; deves decorá-la.”¹ 

(Teoria do Medalhão, recomendação do pai)

Fui convidado pelo sr. Wilian por intermédio do sr. Matheus Cajaíba para palestrar nesta tarde com o seguinte tema: “O Brasil ante o sentido da vida”. Confesso que escapa de mim as condições de dar uma resposta definitiva e talvez nem parcial ao problema. De qualquer modo, como professor há mais de 10 anos e observando o curso histórico brasileiro posso trazer à luz dessa experiência e de outras como católico e pai algumas reflexões.

Pretendo para isso dividir a exposição em duas partes. A primeira tratando do sentido da vida, num âmbito mais geral, e a segunda lidando com a realidade brasileira a partir de dois textos, “O que faz o brasil, Brasil?” do antropólogo Roberto DaMatta e “Teoria do Medalhão”, do autor mor da literatura brasil, Machado de Assis.


  1. O sentido da vida

Na ordem das palavras que servem de título a esta conferência o “sentido da vida” fecha a frase, mas lembrando que a causa final é a primeira, é necessário antes de tudo nos voltarmos à questão: qual é o sentido da vida? Desde tempos imemoriais o ser humano busca respostas a tal questionamento como nos mostram a história das religiões, da filosofia, da psicologia e das ciências em geral.

Antropologicamente, o primeiro a refletir com as armas da razão filosófica a respeito dela foi Sócrates que recorrendo à sabedoria pagã apontou que somente o conhecimento de si mesmo pode, não somente dar sentido à vida, como ao conhecimento do próprio mundo. Como sistematizou os questionamentos do mestre, Platão fincou as bases de qualquer filosofia posterior a tal ponto de Whitehead ter afirmado que toda filosofia se tratava de nota de rodapé ao grego de ombros largos. Poderia aqui ir além citando a predileção que compartilho com S. Tomás de Aquino a Aristóteles, mas não é este o momento oportuno, afinal Aristóteles foi discípulo de Platão. 

Apesar de todo o avanço que a filosofia pagã alcançou, não era possível à razão natural por si mesma dar resposta cabal ao problema central da existência e do sentido da vida. Nesse sentido, foi de outra cultura considerada pelos sábios pagãos um tanto quanto rudimentar e mesmo bárbara que veio a resposta. Calcada não na limitada razão sobrenatural, mas na iluminação divina como bem escreveu S. Agostinho, a resposta veio do próprio Deus feito homem. Tal sentido só faz sentido, me permitam a semi-anáfora, por intermédio da fé sobrenatural. 

Deus mesmo se inseriu na história e com a cruz deu um significado à história humana, pois se a sexta-feira é essencial, o domingo é o seu cume. E isso só pode ser compreendido à luz da Queda e de suas consequências. Com a Queda o homem perdeu sua amizade com Deus e consequentemente os dons preternaturais. Desde daí sua sensibilidade, vontade e inteligência se desordenaram, sendo necessário buscar um modo de ordená-los tendo em vista restaurar a amizade perdida.

Com o pecado original sua natureza foi ferida e os dons preternaturais perdidos. No que interessa mais propriamente à educação, meu ponto de partida nessa palestra, ocorre-lhe a perda da ciência infusa, ou seja, a capacidade do intelecto de conhecer de forma imediata. Desse modo, o estudo com afinco se torna condição sine qua non para adquirir o conhecimento e com isso voltar-se ao Criador. O sentido da vida passa certamente pelo entendimento e assimilação dessas verdades, afinal como dizia Sócrates: “Uma vida sem reflexão não vale a pena ser vivida”.

 

  1. O caso brasileiro


Dificuldade conceitual inicial: os dois brasis (Roberto DaMatta). De um lado a unidade territorial, a impessoalidade, a “rua”. De outro, uma tentativa de unificação cultural, a busca pela identidade, por uma cultura de fato brasileira. Impõe-se aos brasileiros como coletividade a busca por superar o “brasil”, assim mesmo com “b” minúsculo, e alcançar o Brasil como uma verdadeira nação. Deixar de ser um aglomerado de pessoas, uma massa, estatisticamente uma população e passar a ser um povo, reforçando suas tradições e valores.

O problema é que o Brasil encontra-se em tal estágio que a desordem pós-queda não apenas se impõe, como é incentivada. Principalmente na coletividade que culmina na política. Não vislumbro solução política, por isso, não falo ao Brasil, mas ao brasileiro e aqui começo meu recurso à Machado:


“Nem política. Toda a questão é não infringir as regras e obrigações capitais. Podes pertencer a qualquer partido, liberal ou conservador, republicano ou ultramontano, com a cláusula única de não ligar nenhuma idéia especial a esses vocábulos, e reconhecer-lhe somente a utilidade do scibboleth bíblico.” (“Teoria do Medalhão”, Machado de Assis)


O escritor-mor da nossa literatura mostra nessa cena com sua costumeira ironia como um pai ensinava seu filho a se dar bem em meio a uma elite mais afeita às aparências de virtude do que com a própria virtude. O pai ditava ao filho um manual de sobrevivência em meio a lobos de modo a torná-lo também um lobo. E aqui me explico quando digo que a solução não é política se se considera principalmente o cenário da política moderna vinculada ao poder e não ao bem. A solução é espiritual e perpassa a busca por cada pessoa elevar-se moralmente e quem sabe assim alcançar a coletividade e consequentemente a política pelo exemplo e não pela mera persuasão discursiva.


  1. O anti-medalhão:


Com isso chegamos ao vislumbre de alguma resposta ao problema do sentido da vida, como penso ter sido a intenção de quem me convidou. Para tanto farei algumas recomendações em oposição aos conselhos do “Medalhão” como a virtude é oposta ao vício.

Recomendações:

I -

- “Inópia (ausência) mental” do filho...

- “[não andes] desacompanhado, porque a solidão é oficina de idéias, e o espírito deixado a si mesmo, embora no meio da multidão, pode adquirir uma tal ou qual atividade.”

- Busque a salutar solidão de quem olha para si mesmo em confissão como fez o S. Agostinho. Somente nessa solidão que move o sábio podes voltar-se devidamente ao outro.

II - 

- Sobre livrarias: “vai ali falar do boato do dia, da anedota da semana.” Com isso: “reduzes o intelecto, por mais pródigo que seja, à sobriedade, à disciplina, ao equilíbrio comum.”

- Tenhas  menos interesse pelos apelos da política do dia para firmar seu caráter naquilo que é eterno e imutável. Só assim poderás agir com correção em meio ao mundo que te é hostil.

III - 

- Artificialismo: “Melhor do que tudo isso, porém, que afinal não passa de mero adorno, são as frases feitas, as locuções convencionais, as fórmulas consagradas pelos anos...”

- Obviamente o senso comum traz insondáveis sabedorias, mas não confunda isso com apego a vulgaridades. Não é o número que faz a verdade e nem sempre o que é mais belo e numericamente superior é o melhor. 

IV -

- “Não te falei ainda dos benefícios da publicidade. A publicidade é uma dona loureira e senhoril, que tu deves requestar à força de pequenos mimos...”

- Em plena era das redes sociais e dos influencers soa estranho ir contra a sentença acima, mas é necessário em primeiro lugar dar vez à humildade.

V - 

no papel e na língua alguma, na realidade nada. "Filosofia da história", por exemplo, é uma locução que deves empregar com freqüência, mas proíbo-te que chegues a outras conclusões que não sejam as já achadas por outros. Foge a tudo que possa cheirar a reflexão, originalidade, etc., etc.

- Nem tanto à terra, nem tanto ao mar… Não é preciso exercer o extremo oposto do que é dito acima, pois é necessário sim apegar-se à originalidade no sentido de se renovar sempre e buscar a autenticidade, o que é verdadeiro. É difícil em meio aos que estão acostumados à mentira dizer a verdade, mas urge fazê-lo. A preocupação filosófica ao contrário do que diz a sentença não está em decorar aforismo e locuções, mas na busca pela Verdade.


PS: o restante da palestra acabou se perdendo, mas pude recuperar o texto acima coincidentemente num 07 de setembro. Podemos considerar este texto uma pequena lembrancinha para o Brasil.Como dizemos em Minas é só “num repará”.

1- ASSIS, Machado de. Obra Completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994. v. II.
2- Texto condensado e adaptado  de palestra apresentada ao “Grupo Mineiro de Literatura e Filosofia”.

domingo, 16 de agosto de 2026

Pensamento avulso CLVI

O interessante e belo da mensagem evangélica é que a religião abarca tanto o quotidiano quanto o extraordinário, o heróico e o prosaico, o rei e o súdito, o ignorante e o sábio.

sábado, 8 de agosto de 2026

Pensamento avulso CLV

A beleza, um tanto quanto misteriosa, do verdadeiro cristianismo consiste em realizar e transformar as tarefas ordinárias em eventos extraordinários por meio da reta intenção e da oração frequente. E tudo isso no silêncio de uma cela num claustro ou na agitação da cozinha onde se prepara a refeição diária de uma família.

terça-feira, 14 de julho de 2026

Pensamento avulso CLIV

O problema do ignorante moderno é que ele é altamente pretensioso. Imbuído de autoridade adquirida por um sistema de ensino fajuto que lhe concede titulação, sem um pingo de sabedoria que lhe complemente, ele se considera mais do que é, juntando à ignorância o vício da soberba. Disso decorre um fenômeno curioso e ao mesmo tempo triste: a pessoa é incapaz de compreender algo que fuja do seu parco horizonte de conhecimentos invertendo a máxima délfica adotada por Sócrates. O "só sei que nada sei" se transfigura em "o que sei é tudo que existe".