Ontem, dia primeiro de novembro, a Igreja celebrou com alegria todos os santos de Deus, renomados e anônimos, doutos e ignorantes, jovens e velhos. Já no dia de hoje, a Igreja volta seus olhos de modo especial às santas almas do purgatório que ainda não gozam das alegrias daqueles que ontem celebramos. Eis aí um brevíssimo resumo do que a liturgia desses dias nos ensina e celebra.
Tais celebrações repletas de piedade católica e beleza em seus símbolos e orações nos revelam uma parcela da verdadeira riqueza da Igreja. O problema que vivemos é que toda essa riqueza parece ter sido esquecida e os mistérios da fé que resguardam apagados. Isso porque muitas pessoas que se dizem católicas, até mesmo sacerdotes, parecem ignorá-los. Ouvindo ontem uma reportagem de rádio, tive mais uma comprovação disso: uma senhora, que tudo leva a crer católica, reclamava das pessoas que levam flores aos túmulos, mas que no decorrer da vida da pessoa falecida nunca o fizeram. O problema de falas assim é o seu apelo emocional e uma parcela de verdade que carregam. De fato há pessoas que em vida não praticaram boas obras e há parentes que jamais olharam pelo falecido, mas a celebração de finados não consiste em corrigir isso, ou seja, apagar ou minimizar maus relacionamentos.
Interessante é observar o seguinte: provavelmente essa mesma senhora, eu seria capaz de apostar uma bala de maçã verde, diria, se questionada, que a leitura da Bíblia é fundamental. E aí se encontra outro aspecto do problema hodierno: muito se fala na Bíblia e pouco se a conhece de fato e menos ainda se vive o que ela manda. Nesse caso, bastaria recorrer-se ao livro segundo de Macabeus que a liturgia tradicional nos lembra hoje dizendo ser “salutar, o pensamento de rezar pelos defuntos” (II Mach 12, 46). Já dizia também o profeta Oseias que a ignorância causa perecimento do povo e eis aí um exemplo claro disso.
Resta a pergunta: o que pessoas que pensam como a senhora mencionada ignoram? Ignoram a doutrina católica referente aos novíssimos e sobretudo a doutrina do purgatório, por isso, consideram ações católicas de piedade em relação aos defuntos um mero ato externo repetido por costume ou um ato de emoção movido pela dor da perda, pela saudade ou pelo remorso. De fato, a liturgia da Igreja também nos toca à sensibilidade, mas longe está de se reduzir a isso.
Deveriam os católicos saberem que as almas do purgatório são aquelas que, apesar de morrerem sem pecado mortal, ainda não estavam preparadas e purificadas para a visão beatífica própria dos santos. Desse modo, elas devem passar por um período de purgação, de limpeza, a fim de poderem enfim gozar das alegrias eternas do paraíso em consonância com o dito por Nosso Senhor: “Em verdade te digo: dali não saireis antes de teres pago o último centavo” (São Mateus 5, 26). Tais almas em sofrimento purgatório necessitam das orações dos vivos que alcançam de Deus o necessário para abreviar tais sofrimentos. A doutrina da Igreja considera tais almas como parte da Igreja que sofre, chamando-a de Igreja Padecente. Elas obtiveram sentença favorável, mas lhes falta ainda a posse de Deus.
Resta-nos, ao lidar com pessoas que ignoram o que a doutrina ensina, proceder como o conselho evangélico nos diz: falar com mansidão, mas com firmeza. Isso abarca também a verdade que envolve o dia de finados. Não se trata de uma reparação de mágoas, de conflitos ou de um sentimentalismo, mas de um lado da salvação da alma de quem está vivo , bem como o lucro de indulgências, e do outro do abreviamento do sofrimento de quem jaz no purgatório. É preciso urgentemente reaver a verdade esquecida para o bem de todos e para a maior honra e glória de Nosso Senhor Jesus Cristo.
Belo Horizonte, 02 de novembro de 2024
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