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segunda-feira, 7 de setembro de 2026

O Brasil ante o sentido da vida

 “Condeno a aplicação, louvo a denominação. O mesmo direi de toda a recente terminologia científica; deves decorá-la.”¹ 

(Teoria do Medalhão, recomendação do pai)

Fui convidado pelo sr. Wilian por intermédio do sr. Matheus Cajaíba para palestrar nesta tarde com o seguinte tema: “O Brasil ante o sentido da vida”. Confesso que escapa de mim as condições de dar uma resposta definitiva e talvez nem parcial ao problema. De qualquer modo, como professor há mais de 10 anos e observando o curso histórico brasileiro posso trazer à luz dessa experiência e de outras como católico e pai algumas reflexões.

Pretendo para isso dividir a exposição em duas partes. A primeira tratando do sentido da vida, num âmbito mais geral, e a segunda lidando com a realidade brasileira a partir de dois textos, “O que faz o brasil, Brasil?” do antropólogo Roberto DaMatta e “Teoria do Medalhão”, do autor mor da literatura brasil, Machado de Assis.


  1. O sentido da vida

Na ordem das palavras que servem de título a esta conferência o “sentido da vida” fecha a frase, mas lembrando que a causa final é a primeira, é necessário antes de tudo nos voltarmos à questão: qual é o sentido da vida? Desde tempos imemoriais o ser humano busca respostas a tal questionamento como nos mostram a história das religiões, da filosofia, da psicologia e das ciências em geral.

Antropologicamente, o primeiro a refletir com as armas da razão filosófica a respeito dela foi Sócrates que recorrendo à sabedoria pagã apontou que somente o conhecimento de si mesmo pode, não somente dar sentido à vida, como ao conhecimento do próprio mundo. Como sistematizou os questionamentos do mestre, Platão fincou as bases de qualquer filosofia posterior a tal ponto de Whitehead ter afirmado que toda filosofia se tratava de nota de rodapé ao grego de ombros largos. Poderia aqui ir além citando a predileção que compartilho com S. Tomás de Aquino a Aristóteles, mas não é este o momento oportuno, afinal Aristóteles foi discípulo de Platão. 

Apesar de todo o avanço que a filosofia pagã alcançou, não era possível à razão natural por si mesma dar resposta cabal ao problema central da existência e do sentido da vida. Nesse sentido, foi de outra cultura considerada pelos sábios pagãos um tanto quanto rudimentar e mesmo bárbara que veio a resposta. Calcada não na limitada razão sobrenatural, mas na iluminação divina como bem escreveu S. Agostinho, a resposta veio do próprio Deus feito homem. Tal sentido só faz sentido, me permitam a semi-anáfora, por intermédio da fé sobrenatural. 

Deus mesmo se inseriu na história e com a cruz deu um significado à história humana, pois se a sexta-feira é essencial, o domingo é o seu cume. E isso só pode ser compreendido à luz da Queda e de suas consequências. Com a Queda o homem perdeu sua amizade com Deus e consequentemente os dons preternaturais. Desde daí sua sensibilidade, vontade e inteligência se desordenaram, sendo necessário buscar um modo de ordená-los tendo em vista restaurar a amizade perdida.

Com o pecado original sua natureza foi ferida e os dons preternaturais perdidos. No que interessa mais propriamente à educação, meu ponto de partida nessa palestra, ocorre-lhe a perda da ciência infusa, ou seja, a capacidade do intelecto de conhecer de forma imediata. Desse modo, o estudo com afinco se torna condição sine qua non para adquirir o conhecimento e com isso voltar-se ao Criador. O sentido da vida passa certamente pelo entendimento e assimilação dessas verdades, afinal como dizia Sócrates: “Uma vida sem reflexão não vale a pena ser vivida”.

 

  1. O caso brasileiro


Dificuldade conceitual inicial: os dois brasis (Roberto DaMatta). De um lado a unidade territorial, a impessoalidade, a “rua”. De outro, uma tentativa de unificação cultural, a busca pela identidade, por uma cultura de fato brasileira. Impõe-se aos brasileiros como coletividade a busca por superar o “brasil”, assim mesmo com “b” minúsculo, e alcançar o Brasil como uma verdadeira nação. Deixar de ser um aglomerado de pessoas, uma massa, estatisticamente uma população e passar a ser um povo, reforçando suas tradições e valores.

O problema é que o Brasil encontra-se em tal estágio que a desordem pós-queda não apenas se impõe, como é incentivada. Principalmente na coletividade que culmina na política. Não vislumbro solução política, por isso, não falo ao Brasil, mas ao brasileiro e aqui começo meu recurso à Machado:


Nem política. Toda a questão é não infringir as regras e obrigações capitais. Podes pertencer a qualquer partido, liberal ou conservador, republicano ou ultramontano, com a cláusula única de não ligar nenhuma idéia especial a esses vocábulos, e reconhecer-lhe somente a utilidade do scibboleth bíblico.” (“Teoria do Medalhão”, Machado de Assis)


O escritor-mor da nossa literatura mostra nessa cena com sua costumeira ironia como um pai ensinava seu filho a se dar bem em meio a uma elite mais afeita às aparências de virtude do que com a própria virtude. O pai ditava ao filho um manual de sobrevivência em meio a lobos de modo a torná-lo também um lobo. E aqui me explico quando digo que a solução não é política se se considera principalmente o cenário da política moderna vinculada ao poder e não ao bem. A solução é espiritual e perpassa a busca por cada pessoa elevar-se moralmente e quem sabe assim alcançar a coletividade e consequentemente a política pelo exemplo e não pela mera persuasão discursiva.


  1. O anti-medalhão:


Com isso chegamos ao vislumbre de alguma resposta ao problema do sentido da vida, como penso ter sido a intenção de quem me convidou. Para tanto farei algumas recomendações em oposição aos conselhos do “Medalhão” como a virtude é oposta ao vício.

Recomendações:

I -

- “Inópia (ausência) mental” do filho...

- “[não andes] desacompanhado, porque a solidão é oficina de idéias, e o espírito deixado a si mesmo, embora no meio da multidão, pode adquirir uma tal ou qual atividade.”

- Busque a salutar solidão de quem olha para si mesmo em confissão como fez o S. Agostinho. Somente nessa solidão que move o sábio podes voltar-se devidamente ao outro.

II - 

- Sobre livrarias: “vai ali falar do boato do dia, da anedota da semana.” Com isso: “reduzes o intelecto, por mais pródigo que seja, à sobriedade, à disciplina, ao equilíbrio comum.”

- Tenhas  menos interesse pelos apelos da política do dia para firmar seu caráter naquilo que é eterno e imutável. Só assim poderás agir com correção em meio ao mundo que te é hostil.

III - 

- Artificialismo: “Melhor do que tudo isso, porém, que afinal não passa de mero adorno, são as frases feitas, as locuções convencionais, as fórmulas consagradas pelos anos...”

- Obviamente o senso comum traz insondáveis sabedorias, mas não confunda isso com apego a vulgaridades. Não é o número que faz a verdade e nem sempre o que é mais belo e numericamente superior é o melhor. 

IV -

- “Não te falei ainda dos benefícios da publicidade. A publicidade é uma dona loureira e senhoril, que tu deves requestar à força de pequenos mimos...”

- Em plena era das redes sociais e dos influencers soa estranho ir contra a sentença acima, mas é necessário em primeiro lugar dar vez à humildade.

V - 

no papel e na língua alguma, na realidade nada. "Filosofia da história", por exemplo, é uma locução que deves empregar com freqüência, mas proíbo-te que chegues a outras conclusões que não sejam as já achadas por outros. Foge a tudo que possa cheirar a reflexão, originalidade, etc., etc.

- Nem tanto à terra, nem tanto ao mar… Não é preciso exercer o extremo oposto do que é dito acima, pois é necessário sim apegar-se à originalidade no sentido de se renovar sempre e buscar a autenticidade, o que é verdadeiro. É difícil em meio aos que estão acostumados à mentira dizer a verdade, mas urge fazê-lo. A preocupação filosófica ao contrário do que diz a sentença não está em decorar aforismo e locuções, mas na busca pela Verdade.


PS: o restante da palestra acabou se perdendo, mas pude recuperar o texto acima coincidentemente num 07 de setembro. Podemos considerar este texto uma pequena lembrancinha para o Brasil.Como dizemos em Minas é só “num repará”.

1- ASSIS, Machado de. Obra Completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994. v. II.
2- Texto condensado e adaptado  de palestra apresentada ao “Grupo Mineiro de Literatura e Filosofia”.